quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Relato de Experiência: Um pouco do trabalho que venho desenvolvendo com a Sala de Recursos Multifuncionais.

Concorrendo na Categoria Ensino Fundamental Anos Finais ( público alvo de 11 a 14 anos), meu trabalho ficou entre os 7 finalistas.
Me orgulhei muito disso!
Divulgo então minha experiência com vocês:




SALA DE RECURSOS MULTIFUNCIONAIS–UMA EXPERIÊNCIA   MULTIESPECIAL

                                                                               
1- JUSTIFICATIVA
Ao longo da história, as instituições educacionais sempre produziram uma trajetória de práticas excludentes pois delimitavam a escolarização como privilégio de um grupo e não de todos.
A educação Especial percorreu um longo caminho de descasos, desconhecimentos, maus tratos para chegar a Inclusão Social.
No Brasil, em 2008 finalmente é regulamentada através do decreto nº 6.571, de 17/09/2008 a Política de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, fruto de debates promovidos pela secretaria de Educação Especial SEESP/ MEC com a comunidade escolar.
A Inclusão é uma realidade, mesmo que às vezes ainda não sendo colocada em prática em toda sua íntegra como a lei ampara, caminhamos para uma nova era, onde as vivências irão aprimorar as necessidades.
Acolher e preparar alunos com deficiência para que tenham condições de desenvolver-se com autonomia é um dos principais, se não for o principal objetivo da Inclusão. O Estado de Santa Catarina, neste contexto e em especial a Rede Pública Municipal de Ensino de Itajaí, apresentam grande preocupação na efetivação de melhorias para garantir a todos os educandos o acesso ao saber e o ensino de qualidade.
Para auxiliar as escolas de Ensino Regular na questão inclusiva, foi criado um espaço exclusivo com intuito de contribuir na estruturação da tarefa destinada a Educação Especial: As Salas de Recursos Multifuncionais.
Em 2010, nosso município deu início ao funcionamento das Salas de Recursos Multifuncionais e isso foi um grande salto no processo de Inclusão Escolar.
Ao assumir o papel de professora do AEE – Atendimento Educacional Especializado na Escola Básica Prefeito Alberto Werner, percebi que assumir uma Sala de Recursos Multifuncionais  não é assumir compromisso só com o educando e sua família.
É assumir compromisso com a escola, com a comunidade, com os professores, com os avanços na arte de ensinar.
Assumir uma  Sala de Recursos Multifuncionais é deparar-se com a inovação. Como diz MANTOAN (2003, p.81):
“ Inovar não tem necessariamente o sentido do inusitado. As grandes inovações estão, muitas vezes na concretização do óbvio, do simples, do que é possível fazer, mas que precisa ser desvelado, para que possa ser compreendido por todos e aceito sem outras resistências, senão aquelas que dão brilho e vigor ao debate das novidades”.
Assumir uma Sala de Recursos Multifuncionais é deparar-se com o desafio de através das ações em seu micro espaço, contribuir para uma sociedade no futuro mais justa que enxergará igualdade nas diferenças.
            Através das experiências inovadoras e dos desafios que se apresentaram no decorrer do percurso de minha prática pedagógica, foi possível escrever esse trabalho cujo objetivo é relatar como se deu o processo de avanços inclusivos a partir das atividades desenvolvidas pela Sala de Recursos Multifuncionais da Escola Básica Prefeito Alberto Werner, suas ações e funções ou parcerias , contribuindo para obter uma educação especial de qualidade a partir de um atendimento especializado.
2-OBJETIVOS
2.1-OBJETIVO GERAL:
·    Contribuir para a qualidade da educação, medida pelo seu grau de inclusão, visando uma escola para todos
2.2- OBJETIVOS ESPECÍFICOS:
·      Fortalecer o Projeto Político Pedagógico, construindo uma proposta curricular mais próxima das realidades sócio-culturais da comunidade escolar, melhorando as estratégias de ensino – aprendizagem;
·      Criar condições de permanência dos alunos com Necessidades Educacionais Especiais no contexto escolar, objetivando oferecer maior identidade e autonomia, bem como acessibilidade;
·      Garantir, aos educandos com deficiência de natureza física, intelectual ou sensorial, participação plena e efetiva de interação em todas as ações escolares, em parceria com a equipe técnico-administrativa da unidade de ensino;
·     Oportunizar que o educando se desenvolva em um ambiente lúdico na SRM, que respeite suas habilidades, bem como seus valores culturais e lingüísticos;
·     Produzir materiais pedagógicos adaptados às necessidades dos alunos atendidos no AEE;
·     Promover momentos de Formação Continuada aos professores na unidade escolar, através de palestras e reuniões com a professora do AEE.
3- Conteúdos Curriculares :
O trabalho realizado na Sala Multifuncional é de cunho pedagógico,objetivando avanços na dimensão cognitiva, afetiva,social e motora do aluno com necessidades educacionais especiais – ANEE. São desenvolvidas atividades envolvendo habilidades na área de linguagem, sensações, percepções, coordenação motora, atenção, concentração, memória, raciocínio lógico, nomeação e formação de conceitos, atividades de vida diária -AVDs, atividades que envolvam questões comportamentais e que auxiliem na sala de aula para a  aceitação do outro, tolerância à frustrações, exposição de desejos e anseios, etc.  Também foi desenvolvido  na Sala de Recursos Mutifuncionais da E.B. Prefeito Alberto Werner a Comunicação Alternativa, a Tecnologia Assistiva, a Produção de Materiais Pedagógicos Adaptados buscando constante intercâmbio e oferecimento de orientações aos professores que atuam com esses educandos no ensino regular.

            4- METODOLOGIA:
Ao assumir a Sala de Recursos Multifuncionais, várias ações foram planejadas e executadas. Irei relatar as nossas experiências sob quatro aspectos:
4.1- Os desafios provocados pela inovação:

  • Levantamento dos alunos que seriam público –alvo no atendimento educacional especializado, conversa com as famílias;
  • Levantamento e listagem dos Recursos Tecnológicos enviados pelo MEC para serem salvaguardados na responsabilidade da professora do AEE;
  • Reunião com os pais dos alunos envolvidos, para apresentação da SRM, do trabalho de AEE, conscientização da importância de efetivarem as matrículas de seus filhos  e da freqüência deles no contra tuno para melhor desempenho no ensino regular;
  • Entrevistas com as mães – ANAMNESES com objetivo de coleta de informações sobre o histórico de desenvolvimento do educando, costumes em casa, preferências, como é visto e tratado por sua família, entre outras informações.
  • Organização dos horários em período contrário ao ensino regular, priorizando a disponibilidade na agenda semanal dos pais;
  • Seleção com os professores de educandos com necessidades educacionais especiais para uma avaliação inicial, uma triagem em possíveis casos de educandos sem diagnóstico médico, mas que seria necessário encaminhamento ao Neuropediatra para uma avaliação neurológica;
  • Devolutiva da avaliação realizada pela professora do AEE à Direção, especialistas e professores envolvidos.
4.2-Ações para a efetivação do processo inclusivo:
    • Estudo e montagem do Projeto de trabalho pretendido com a Sala de Recursos Multifuncionais para 2011 na Unidade Escolar;
·     Realização de  pesquisa  com os professores regentes a respeito de quais  Intervenções e Ações estariam desenvolvendo na sala de aula, com os ANEEs, respeitando as suas necessidades educacionais especiais ;
·     Entrega de orientações escritas aos professores com  sugestões da professora do AEE a partir da pesquisa realizada, objetivando auxiliar o professor no desenvolvimento das habilidades do ANEE em sala;
·     Atendimentos aos ANEEs na SRM, priorizando atividades de sondagem, de verificação de habilidades do educando para a posteriori montar o Plano Individual de Trabalho – PIT , de cada um ;
·       Acolhimento à educandos e famílias, tornando acessível a comunicação com a professora do AEE;
·        Realização de  intercâmbio com o CEMESPI, Centro de Atendimento Alternativo de Itajaí , buscando informações referentes aos atendimentos clínicos já existentes e encaminhamento de  novos casos para avaliação clínica;
·      Pesquisa sobre as deficiências apresentadas  pela clientela da SRM e  socialização de informações com as professoras do Ensino regular;
·      Criação do Blog Sala Multiespecial com objetivo de divulgar o  trabalho de AEE realizado pela professora da SRM a toda a comunidade escolar interessada  em adquirir novos conhecimentos a respeito da Educação Especial, suas Legislações e questões inclusivas. Divulgação do link na comunidade escolar para acesso de todos (direção, pais, professores e alunos):   http://salamultiespecialdaandrea.blogspot.com/;
·       Visando competência para trabalhar com os ANEEs, participação da professora da SRM em Formações Continuadas, cursos presenciais e á distância, bem como ingresso e conclusão da Pós Graduação em Educação Especial totalizando em torno de 1.000 horas de Capacitação no ano de 2011;
·      Produção de materiais adaptados a cada deficiência, confecção de jogos, planejamento de atividades lúdicas, envolvendo literatura infantil, músicas, expressões artísticas para promover o interesse dos educandos na Sala de Recursos Multifuncionais;
·       Montagem de registros dos atendimentos através de PORTFÓLIOS DIFERENCIADOS voltados ao AEE e socialização dos portfólios dos alunos com professores e famílias, para acompanhamento do AEE;
4.3- Implementação do trabalho coletivo:
            Ninguém desenvolve um projeto sem parcerias, sem a participação de todos os envolvidos.Por saber da importância que uma gestão escolar ocupa em seu meio de ensino,procurei primeiro o apoio da Direção e da Supervisão Escolar da instituição de ensino:
“ Os desafios surgem para a direção e professores diante dos fatos sociais que acabam influenciando o ensino como um todo. A gestão escolar democrática representa um sinal significativo da necessidade de interação entre pólos distintos, como a escola e comunidade, para que se consiga atender às necessidades do aluno de forma adequada, privilegiando a união como integrante fundamental de mudanças.” (ZANLOURENÇO, SCHNEKENBERG, 2008, p. 05)
            Com o apoio da equipe de gestão escolar, organizamos uma Formação Continuada aos professores, subdividida em três momentos anuais.
            Primeiro Encontro - Reunião da professora do AEE com os demais profissionais no I Conselho de Classe: apresentação do projeto montado, esclarecimento de dúvidas sobre o papel da SRM, qual trabalho seria desenvolvido, que alunos atenderia, que contribuições poderia trazer ao ensino regular e ao educando com deficiência, quais necessidades educacionais especiais encontrávamos na instituição, informações sobre elas, bem como realização de momento de sensibilização  à questão inclusiva.
           Segundo Encontro – Reunião com a professora do AEE e todos os demais envolvidos no processo educacional. Tema: Avaliação dos ANEEs, trabalho com atividades adaptadas, maneiras de trabalhar com portfólios e ou registros diferenciados nos cadernos dos alunos. Sugestões e trocas de experiências.
            Terceiro Encontro – Estudo em grupo sobre a Política de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva para incluir no Projeto Político Pedagógico da Unidade Escolar a proposta curricular organizada pelos professores, voltada para a educação inclusiva.Previsto para novembro de 2011.
             Em comemoração a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência, realizamos a I Semana da Pessoa com deficiência na Escola Básica Prefeito Alberto Werner, que contou com a participação de todos os envolvidos no processo inclusivo. Divulgamos a Programação do evento a toda comunidade escolar.
Entre as atividades programadas para o evento, ressalto três que foram de grande interesse de todos os alunos:
A)    Conhecendo a Sala de Recursos Multifuncional: Com objetivo de divulgar o trabalho realizado pelo AEE e aproximar todos os educandos do uso de Recursos Tecnológicos e Tecnologia Assistiva, a prof. da SEM, realizou  através de um sorteio nas turmas de 1º ao 4º ano, atendimento em conjunto com dois educandos sorteados, promovendo jogos e uso do computador.
B)    Palestra sobre “ Deficiências – Importância do trabalho cooperativo para vencer as barreiras “-seguida de uma dinâmica de grupo na turma do 5º ano. Após confecção de Cartazes e exposições nos murais da escola.
C)    Hora do Conto aos alunos de 1º ao 4º ano, com literaturas infantis envolvendo as questões das deficiências.
4.4- Novas perspectivas para as práticas escolares:
·         Trocas entre os educadores: A partir de um trabalho coletivo, estabeleceu-se maior vínculo de confiança entre professora do AEE com os demais professores do ensino formal, resultando entre os profissionais parcerias, busca de informações, trocas, sugestões de como ADAPTAR as atividades aos ANEEs no dia-a-dia, produções de Materiais Adaptados a serem utilizados no ensino regular;
·         Criação de um espaço virtual – Professora do AEE e educandos montam um BLOG destinado aos alunos durante os atendimentos na Sala de Recursos Multifuncionais visando servir como um instrumento de divulgação do trabalho de Atendimento Educacional Especializado, como um meio de aproximação da  professora do AEEE com professores do ensino regular, como uma ferramenta de inclusão das famílias no processo ensino aprendizagem, como um recurso de avaliação de todos os envolvidos, como um instrumento  acessível a todos . Blog  http://construindonasalamultiespecial.blogspot.com/
Nesse espaço os  alunos irão pesquisar, ler, escrever comentários, expor suas produções nos atendimentos, opinar sobre o que desejam ampliar de conhecimento, construindo seu aprendizado no BLOG e tendo acesso às construções dos demais colegas.Os três alunos de idades mais avançadas (sexta e sétima séries) ficarão responsáveis pela digitação dos textos, dos atendimentos realizados a serem postados no BLOG, bem como aprenderão como postar imagens, documentos, configurar, organizar o design do Blog, fazer a leitura das estatísticas publicadas, etc. O objetivo dessa ação será o de estimular nesses ANEEs  a importância da responsabilidade, cumprimento de suas obrigações com o grupo, organização e atenção ao trabalho que executam e quem sabe contribuir para inseri-los com mais chances no Mercado de Trabalho.

5- AVALIAÇÃO:

Segundo a professora Maria Teresa Mantoan, a educação inclusiva preconiza um ensino em que aprender não é um ato linear, continuo, mas fruto de uma rede de relações que vai sendo tecida pelos aprendizes, em ambientes escolares que não discriminam, que não rotulam e que oferecem chances de sucesso para todos, dentro dos interesses, habilidades e possibilidades de cada um. Por isso, quando apenas avaliamos o produto e desconsideramos o processo vivido pelos alunos para chegar ao resultado final realizamos um corte totalmente artificial no processo de aprendizagem.
Ao contrário, quando optamos por avaliar aquilo que o educando é capaz de produzir, a observação, a atenção às repostas que o mesmo dá às atividades que estão sendo trabalhada, as análises das tarefas que ele é capaz de realizar fazem parte das alternativas pedagógicas utilizadas para avaliar. O processo de avaliação que é coerente com uma avaliação inclusiva acompanha o percurso de cada educando, suas evoluções, competências e conhecimentos.
Partindo dessa premissa, com o presente trabalho, ressalto a experiência pedagógica que buscou-se vivenciar em grupo e que já demonstra um novo olhar do educador aos direitos da pessoa com deficiência, ao compromisso do professor em primar por uma educação para todos.
Já percebe-se nova tomada de atitude de aluno para aluno, não mais discriminando, mas respeitando. Já sentimos uma nova forma dos pais conceberem o papel da escola, não somente o de repassar conhecimento, mas o de ser um espaço para todos que dele necessitarem.
“ Sem o trabalho coletivo, dificilmente consegue-se alcançar os resultados propostos, pois é a integração do grupo que permite uma intervenção para que se definam os objetivos a serem realizados e que cada um assuma, dentro da sua função, a responsabilidade de pertencer ao grupo”. (ZANLOURENÇO, SCHNEKENBERG, 2008)
Muito se tem a fazer ainda no AEE da EBPAW, mas a semente já foi lançada e uma pequena chama de vida buscando a solidariedade, o respeito ás diferenças, o trabalho em conjunto e a confiança de que todos podem aprender já está emergindo... Talvez no futuro, possamos colher os frutos das ações que uma  escola inclusiva refletirá na sociedade que esperamos. Eu fico muito satisfeita, de ter auxiliado a semear essa terra...

6- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ZANLORENÇO, M. SCHNEKENBERG, M. Liderança e Motivação na Gestão Escolar: o Trabalho Articulador dos Diretores das Escolas Municipais, 2008.
                    
MANTOAN, M.T.E. Inclusão escolar: o que é? Porque? Como fazer? São Paulo: Moderna, 2003.

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO ESPECIAL: Atendimento Educacional Especializado: Aspectos Legais e Orientações Pedagógicas. (org.) – Eugênia Augusta, Luísa de MARILLAC, Maria Teresa Mantoan. – São Paulo:MEC/SEESP, 2007.
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil.Brasília: Centro Gráfico do Senado Federal, 1988.

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO ESPECIAL. Saberes e práticas da inclusão: Introdução. Coord. Geral l- Francisca Roseneide Furtada do Monte, I de Borges dos Santos – Brasília: MEC, SSESP,
BRASIL. Ministério da Educação. Inclusão. Revista da Educação Especial. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Secretaria de Educação Especial, v. 04, n. 05. Brasília: SEESP, 2008. disponível em: www.mec.gov.br. Acesso em 14 jul 2011.
BRASIL. Ministério da Educação. Plano de Desenvolvimento da Educação: razões, princípios e programas. Brasília: MEC, 2007.

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